Março 2024 · 27 anos
Colesterol de quem come mal
Metabolismo perfeito, perfil lipídico ruim. Colesterol total em 229 e LDL em 163 — o pior número de toda a série. Glicose e hemoglobina glicada já eram excelentes.
Painel de sangue · Lucas Silvano · 2024 – 2026
O laudo do laboratório entrega dez páginas de números soltos de um único dia. Aqui estão os mesmos exames lidos como o que eles realmente são: uma série temporal de três anos, com o contexto de treino e dieta que explica cada movimento — e a lista do que pedir no próximo.
Cada exame pegou você numa fase diferente. Ler os três juntos muda completamente o significado dos números — inclusive o de alguns que, isolados, pareceriam ter piorado.
Março 2024 · 27 anos
Metabolismo perfeito, perfil lipídico ruim. Colesterol total em 229 e LDL em 163 — o pior número de toda a série. Glicose e hemoglobina glicada já eram excelentes.
Fevereiro 2025 · 28 anos
Lipídios lindos na superfície, mas pelo motivo errado. HDL despencou para 31, fígado e músculo sob estresse (AST 47, ALT 43), inflamação dobrou e o ferro caiu. É o retrato de três anos de déficit calórico com volume de treino altíssimo.
Julho 2026 · 29 anos · atual
Praticamente todo marcador de estresse energético melhorou. HDL saltou para 49 — o melhor da série. Fígado normalizou, catabolismo parou. O custo: colesterol e triglicerídeos voltaram a subir, o que era esperado.
A dieta reversa começou por volta de 08 de julho de 2026. O sangue foi coletado em 30 de julho. São três semanas de realimentação em cima de três anos de déficit calórico crônico — e isso reescreve a leitura de quase todos os números abaixo.
É por isso que o HDL saltou de 31 para 49: ele é o marcador que mais responde a parar de passar fome. É por isso que a glicose subiu de 75 para 89 — não é pré-diabetes, é a glicemia artificialmente baixa de quem não comia o suficiente voltando ao normal. E é por isso que o colesterol subiu: é o preço previsto de comer mais, e ele foi pago com desconto, porque as razões de risco cardiovascular ficaram as melhores dos três anos.
Consequência prática: estes números ainda estão em movimento. Não são a sua linha de base nova. Repetir em outubro ou novembro, já estabilizado em manutenção, é o que vai dizer para onde o corpo assentou.
Cada régua mostra a faixa de referência colorida, com os três anos plotados na mesma escala. O ponto preto cheio é 2026. Os vazados são 2024 e 2025. É a informação que o laudo do laboratório tem, mas nunca mostra junta.
Metade do valor de um exame é saber com o que não se preocupar. Esta é a divisão honesta.
Duas coisas. Só duas.
31,4 → 25,0 → 24,0 em três anos, com você já suplementando. A dose atual não está funcionando. Para quem cai no tatame quatro vezes por semana isso custa recuperação mais lenta, testosterona mais baixa e imunidade pior.
Ação → levar o número para a Dra. Barbara · conferir se o suplemento é D3 · tomar junto de refeição com gordura (as amêndoas do café ou o azeite) · alvo 40–60 ng/mLVocê dorme cerca de 6,6 h. Uma semana de sono curto derruba a testosterona de homens jovens em 10–15%, piora a sensibilidade à insulina e sobe marcadores inflamatórios. Boa parte da queda de 608 para 525 provavelmente é sono, não treino.
Ação → tratar 7,5 h como parte do treino · cafeína só até as 14h · horário fixo de dormirNada aqui pede remédio, dieta restritiva ou parar de treinar
As razões CT/HDL (4,20) e LDL/HDL (2,65) são as melhores dos três anos. Continue com amêndoas, castanha, azeite e carne. Só não deixe passar de ~140 no próximo.
Creatina suplementar e mais massa muscular inflam creatinina sem nenhum problema renal. A ureia normal em 35 confirma.
Pré-diabetes começa em 5,7%. Você está longe.
Dois anos idêntico e com valor absoluto dentro da referência. Não se investiga.
A faixa vai de 259 a 816, e a medida foi feita no pior momento possível: três semanas depois de começar a comer de novo.
Dentro da referência. Só anotar para comparar no próximo.
Cansaço acumulado de treino muda exames de verdade — e muda estes aqui. A comparação com 2025 é a parte interessante.
| Marcador | Quando você está sobrecarregado | 2025 | 2026 |
|---|---|---|---|
| AST / CK | Sobem (dano muscular não reparado) | 47 — alto | 31 — normal |
| Ureia | Sobe (queima de proteína como energia) | 42 — alta-normal | 35 — normal |
| PCR | Sobe (inflamação sistêmica) | 2,46 — dobrou | não medido |
| Testosterona livre | Cai | não medida | 10,54 — normal |
| SHBG | Sobe | não medida | 36 — meio da faixa |
| Linfócitos | Caem (imunidade suprimida) | 3.432 | 3.193 — o oposto do padrão |
| Ferritina | Cai | 213,6 — ótima | não medida |
O exame de 2026 não tem assinatura de overtraining. O de 2025 tinha muito mais: AST alto, ureia alta, inflamação dobrada, HDL no chão, ferro caindo — o retrato do atleta multiesporte subalimentado.
Você cortou o volume redundante e voltou a comer. O sangue respondeu.
A maior parte do cansaço acumulado — o overreaching não-funcional — nunca aparece em exame. O que detecta de verdade você já tem no relógio:
FC de repouso (sua: 44–49) subindo 5–7 bpm por 3–5 dias seguidos. HRV (sua: 75–91) caindo 15–20% de forma sustentada. Força travando por duas semanas. Sono, libido, apetite e humor caindo juntos.
Isoladamente, é cansaço normal de quem treina jiu quatro vezes por semana. Vira problema quando aparece junto com FC de repouso subindo e HRV caindo e força parando ao mesmo tempo.
Hoje seus dados não mostram isso.
Testosterona — o efeito mais bem documentado. Glicose e HbA1c — restrição de sono piora a sensibilidade à insulina em poucos dias; sua HbA1c subindo tem dois autores, a realimentação (benigna) e o sono curto (corrigível). Inflamação e reparo — sono curto sobe PCR e reduz a síntese proteica que conserta o treino de ontem.
Um detalhe a seu favor: a coleta foi às 08:51, dentro do pico matinal de testosterona. O 525 é um número honesto, não artefato de horário.
Janela ideal: outubro ou novembro de 2026, cerca de 90 dias depois de estabilizar em manutenção. Esta lista foi montada para responder três perguntas: a vitamina D respondeu, a recuperação está boa, e o hormonal voltou a subir.
O núcleo. Se for pedir só um bloco, peça este.
Estava 1,04 → 2,46 e ficou de fora em 2026. É a leitura mais direta de inflamação sistêmica — a lacuna que impede de responder sua pergunta sobre overtraining com números.
Dano muscular. Muito mais sensível que o AST para dizer se o treino está sendo reparado entre as sessões. Nunca foi medida.
O que você quer ver. Sozinho diz pouco — o valor real vem da razão com a testosterona livre (protocolo abaixo).
Repetir na mesma coleta do cortisol. Total caiu 608 → 525 e livre 22%; a pergunta é se a realimentação reverteu.
Terceiro ano caindo. Este é o exame que diz se a dose nova funcionou.
Ficaram de fora em 2026. Ferro caindo é um dos primeiros sinais de sobrecarga em atleta.
Vale se a médica concordar — explica por que, não só se.
O hormônio que realmente cai no déficit energético crônico. TSH e T4 livre normais não excluem T3 baixo. Com o seu histórico, é o mais informativo dos três.
Separam “testosterona baixa por causa do cérebro” (déficit, sono, estresse) de “por causa do testículo”. Sem eles, testosterona isolada é ambígua.
Completa a leitura da testosterona — parte dela é convertida, e o equilíbrio importa mais que o número bruto.
Termômetro de status anabólico e energético. Sobe quando a realimentação está funcionando.
Só se o TSH vier acima de 4 com T4 livre caindo. Hoje não se justifica.
Nada urgente. Alguns se fazem uma vez na vida.
Mede o número de partículas aterogênicas, não a gordura dentro delas. É melhor preditor que o LDL e resolve a ambiguidade do seu “LDL subiu mas as razões melhoraram”.
Genética, não muda com dieta. Mede-se uma vez na vida e nunca mais. Aos 29 é a hora.
Com a glicose subindo de 75 para 89 durante a realimentação, mostra se é adaptação normal ou resistência começando.
Marcador renal que não sofre com creatina nem massa muscular. Encerra de vez a dúvida sobre a creatinina em 1,09.
O magnésio sérico (2,03 em 2025) é um marcador fraco — quase sempre normal mesmo com déficit. O eritrocitário mostra o estoque real.
Fecha o quadro com B12 e ácido fólico. Seu B12 caiu de 768 para 447 e o fólico de 20,3 para 12,7.
Cortisol é o exame mais fácil de fazer errado. Ele varia num ciclo de 24 horas e reage a estresse agudo, então um número isolado colhido em dia ruim não significa nada. Se for fazer, faça assim:
A série completa, para levar impressa na consulta.