Painel de sangue · Lucas Silvano · 2024 – 2026

Três exames.
Três corpos diferentes.

O laudo do laboratório entrega dez páginas de números soltos de um único dia. Aqui estão os mesmos exames lidos como o que eles realmente são: uma série temporal de três anos, com o contexto de treino e dieta que explica cada movimento — e a lista do que pedir no próximo.

Coleta atual 30/07/2026, 08:51 Idade 29 anos Comparativos 15/03/2024 · 13/02/2025 Contexto jiu-jitsu 4×/sem + musculação

O mesmo corpo, em três estados

Cada exame pegou você numa fase diferente. Ler os três juntos muda completamente o significado dos números — inclusive o de alguns que, isolados, pareceriam ter piorado.

Março 2024 · 27 anos

Colesterol de quem come mal

Metabolismo perfeito, perfil lipídico ruim. Colesterol total em 229 e LDL em 163 — o pior número de toda a série. Glicose e hemoglobina glicada já eram excelentes.

LDL 163 · CT 229

Testosterona 608

Vitamina D 31,4

Fevereiro 2025 · 28 anos

Atleta subalimentado

Lipídios lindos na superfície, mas pelo motivo errado. HDL despencou para 31, fígado e músculo sob estresse (AST 47, ALT 43), inflamação dobrou e o ferro caiu. É o retrato de três anos de déficit calórico com volume de treino altíssimo.

HDL 31 — o pior marcador

PCR dobrou · AST 47

Vitamina D 25,0

Julho 2026 · 29 anos · atual

Corpo em recuperação

Praticamente todo marcador de estresse energético melhorou. HDL saltou para 49 — o melhor da série. Fígado normalizou, catabolismo parou. O custo: colesterol e triglicerídeos voltaram a subir, o que era esperado.

HDL 49 · melhor da série

ALT 17 · AST 31

Vitamina D 24,0

22dias de dieta reversa quando o sangue foi coletado

Este exame não é o seu estado estável. É o seu corpo saindo do buraco.

A dieta reversa começou por volta de 08 de julho de 2026. O sangue foi coletado em 30 de julho. São três semanas de realimentação em cima de três anos de déficit calórico crônico — e isso reescreve a leitura de quase todos os números abaixo.

É por isso que o HDL saltou de 31 para 49: ele é o marcador que mais responde a parar de passar fome. É por isso que a glicose subiu de 75 para 89 — não é pré-diabetes, é a glicemia artificialmente baixa de quem não comia o suficiente voltando ao normal. E é por isso que o colesterol subiu: é o preço previsto de comer mais, e ele foi pago com desconto, porque as razões de risco cardiovascular ficaram as melhores dos três anos.

Consequência prática: estes números ainda estão em movimento. Não são a sua linha de base nova. Repetir em outubro ou novembro, já estabilizado em manutenção, é o que vai dizer para onde o corpo assentou.

Onde cada marcador está — e de onde ele veio

Cada régua mostra a faixa de referência colorida, com os três anos plotados na mesma escala. O ponto preto cheio é 2026. Os vazados são 2024 e 2025. É a informação que o laudo do laboratório tem, mas nunca mostra junta.

O que exige ação e o que não exige

Metade do valor de um exame é saber com o que não se preocupar. Esta é a divisão honesta.

Cuidar

Duas coisas. Só duas.

  • Vitamina D — a única coisa realmente fora do lugar

    31,4 → 25,0 → 24,0 em três anos, com você já suplementando. A dose atual não está funcionando. Para quem cai no tatame quatro vezes por semana isso custa recuperação mais lenta, testosterona mais baixa e imunidade pior.

    Ação → levar o número para a Dra. Barbara · conferir se o suplemento é D3 · tomar junto de refeição com gordura (as amêndoas do café ou o azeite) · alvo 40–60 ng/mL
  • Sono — o maior fator isolado que você controla

    Você dorme cerca de 6,6 h. Uma semana de sono curto derruba a testosterona de homens jovens em 10–15%, piora a sensibilidade à insulina e sobe marcadores inflamatórios. Boa parte da queda de 608 para 525 provavelmente é sono, não treino.

    Ação → tratar 7,5 h como parte do treino · cafeína só até as 14h · horário fixo de dormir

Não cuidar

Nada aqui pede remédio, dieta restritiva ou parar de treinar

  • LDL 130 — não corte gordura

    As razões CT/HDL (4,20) e LDL/HDL (2,65) são as melhores dos três anos. Continue com amêndoas, castanha, azeite e carne. Só não deixe passar de ~140 no próximo.

  • Creatinina 1,09 — seu rim está bem

    Creatina suplementar e mais massa muscular inflam creatinina sem nenhum problema renal. A ureia normal em 35 confirma.

  • HbA1c 5,1% — não é pré-diabetes

    Pré-diabetes começa em 5,7%. Você está longe.

  • Linfócitos 51,5% — é o seu padrão

    Dois anos idêntico e com valor absoluto dentro da referência. Não se investiga.

  • Testosterona 525 — não é hipogonadismo

    A faixa vai de 259 a 816, e a medida foi feita no pior momento possível: três semanas depois de começar a comer de novo.

  • TSH 2,63 — não é tireoide

    Dentro da referência. Só anotar para comparar no próximo.

Overtraining aparece no sangue. O seu diz que não.

Cansaço acumulado de treino muda exames de verdade — e muda estes aqui. A comparação com 2025 é a parte interessante.

MarcadorQuando você está sobrecarregado20252026
AST / CKSobem (dano muscular não reparado)47 — alto31 — normal
UreiaSobe (queima de proteína como energia)42 — alta-normal35 — normal
PCRSobe (inflamação sistêmica)2,46 — dobrounão medido
Testosterona livreCainão medida10,54 — normal
SHBGSobenão medida36 — meio da faixa
LinfócitosCaem (imunidade suprimida)3.4323.193 — o oposto do padrão
FerritinaCai213,6 — ótimanão medida

O veredito

O exame de 2026 não tem assinatura de overtraining. O de 2025 tinha muito mais: AST alto, ureia alta, inflamação dobrada, HDL no chão, ferro caindo — o retrato do atleta multiesporte subalimentado.

Você cortou o volume redundante e voltou a comer. O sangue respondeu.

Mas sangue é um detector ruim de overtraining

A maior parte do cansaço acumulado — o overreaching não-funcional — nunca aparece em exame. O que detecta de verdade você já tem no relógio:

FC de repouso (sua: 44–49) subindo 5–7 bpm por 3–5 dias seguidos. HRV (sua: 75–91) caindo 15–20% de forma sustentada. Força travando por duas semanas. Sono, libido, apetite e humor caindo juntos.

Cansaço de jiu 4×/semana

Isoladamente, é cansaço normal de quem treina jiu quatro vezes por semana. Vira problema quando aparece junto com FC de repouso subindo e HRV caindo e força parando ao mesmo tempo.

Hoje seus dados não mostram isso.

Sono mexe em três coisas do seu exame

Testosterona — o efeito mais bem documentado. Glicose e HbA1c — restrição de sono piora a sensibilidade à insulina em poucos dias; sua HbA1c subindo tem dois autores, a realimentação (benigna) e o sono curto (corrigível). Inflamação e reparo — sono curto sobe PCR e reduz a síntese proteica que conserta o treino de ontem.

Um detalhe a seu favor: a coleta foi às 08:51, dentro do pico matinal de testosterona. O 525 é um número honesto, não artefato de horário.

O próximo exame: o que pedir

Janela ideal: outubro ou novembro de 2026, cerca de 90 dias depois de estabilizar em manutenção. Esta lista foi montada para responder três perguntas: a vitamina D respondeu, a recuperação está boa, e o hormonal voltou a subir.

Prioridade 1

Responde “estou me recuperando bem?”

O núcleo. Se for pedir só um bloco, peça este.

  • PCR ultrassensível

    Estava 1,04 → 2,46 e ficou de fora em 2026. É a leitura mais direta de inflamação sistêmica — a lacuna que impede de responder sua pergunta sobre overtraining com números.

  • CK (creatina quinase)

    Dano muscular. Muito mais sensível que o AST para dizer se o treino está sendo reparado entre as sessões. Nunca foi medida.

  • Cortisol sérico matinal

    O que você quer ver. Sozinho diz pouco — o valor real vem da razão com a testosterona livre (protocolo abaixo).

  • Testosterona total + livre + SHBG

    Repetir na mesma coleta do cortisol. Total caiu 608 → 525 e livre 22%; a pergunta é se a realimentação reverteu.

  • Vitamina D 25-OH

    Terceiro ano caindo. Este é o exame que diz se a dose nova funcionou.

  • Ferritina + ferro + saturação de transferrina

    Ficaram de fora em 2026. Ferro caindo é um dos primeiros sinais de sobrecarga em atleta.

Prioridade 2

Fecha o quadro hormonal e tireoidiano

Vale se a médica concordar — explica por que, não só se.

  • T3 livre

    O hormônio que realmente cai no déficit energético crônico. TSH e T4 livre normais não excluem T3 baixo. Com o seu histórico, é o mais informativo dos três.

  • LH e FSH

    Separam “testosterona baixa por causa do cérebro” (déficit, sono, estresse) de “por causa do testículo”. Sem eles, testosterona isolada é ambígua.

  • Estradiol (E2)

    Completa a leitura da testosterona — parte dela é convertida, e o equilíbrio importa mais que o número bruto.

  • IGF-1

    Termômetro de status anabólico e energético. Sobe quando a realimentação está funcionando.

  • Anti-TPO

    Só se o TSH vier acima de 4 com T4 livre caindo. Hoje não se justifica.

Prioridade 3

Risco cardiovascular de longo prazo e refinamentos

Nada urgente. Alguns se fazem uma vez na vida.

  • ApoB

    Mede o número de partículas aterogênicas, não a gordura dentro delas. É melhor preditor que o LDL e resolve a ambiguidade do seu “LDL subiu mas as razões melhoraram”.

  • Lipoproteína(a)

    Genética, não muda com dieta. Mede-se uma vez na vida e nunca mais. Aos 29 é a hora.

  • Insulina de jejum + HOMA-IR

    Com a glicose subindo de 75 para 89 durante a realimentação, mostra se é adaptação normal ou resistência começando.

  • Cistatina C

    Marcador renal que não sofre com creatina nem massa muscular. Encerra de vez a dúvida sobre a creatinina em 1,09.

  • Magnésio eritrocitário

    O magnésio sérico (2,03 em 2025) é um marcador fraco — quase sempre normal mesmo com déficit. O eritrocitário mostra o estoque real.

  • Homocisteína

    Fecha o quadro com B12 e ácido fólico. Seu B12 caiu de 768 para 447 e o fólico de 20,3 para 12,7.

Como coletar o cortisol sem estragar o resultado

Cortisol é o exame mais fácil de fazer errado. Ele varia num ciclo de 24 horas e reage a estresse agudo, então um número isolado colhido em dia ruim não significa nada. Se for fazer, faça assim:

  1. Colete entre 07h e 09h, em jejumÉ o pico fisiológico. Fora dessa janela o valor não se compara com nenhuma referência. Sua última coleta às 08:51 foi no horário certo — repita.
  2. Não treine nas 24 horas anterioresTreino intenso sobe cortisol e CK de forma aguda. Se treinar na véspera, o exame mede o treino, não o seu estado basal. Vale para o CK também.
  3. Cortisol e testosterona livre na mesma coletaO que responde overtraining não é o cortisol sozinho: é a razão testosterona livre / cortisol. Ela cai antes de qualquer sintoma aparecer. Se saírem em dias diferentes, a razão não vale nada.
  4. Se quiser a leitura completa, peça cortisol salivar em 4 pontosAo acordar, 30 minutos depois, às 16h e às 23h. Mostra a curva inteira e a resposta ao despertar — muito mais informativo que um ponto único de sangue, e é justamente a curva que se achata em fadiga crônica.
  5. Noite normal antesSem álcool, sem madrugada, sem sono de 4 horas. Você está investigando o seu padrão, não o efeito de uma noite ruim.

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